Não é disso que eu quero falar, se pudesse não falava de nada. Correria nu por aí e depois me jogaria no mar...
São nove horas da manhã e o relógio já marca 35ºC (sim, eu disse relógio, um daqueles que também marca a temperatura. Você com certeza já passou por um deles).
Depois de encarar um ônibus lotado me dirijo ao escritório, mais vinte minutos de caminhada. Terno, gravata, suor, calça, suor, meia, suor, sapato, suor... Entro no prédio e a recepcionista me olha de cara feia, minha única alegria é o ar condicionado da sala dos estagiários. Quebrado. Não acredito! Tudo aponta para o dia mais quente do ano e o ar não esta funcionando. Cinco ventiladores ligados sopram vento quente de um lado pro outro.
Olho todos dentro da sala, contando comigo somamos o total de quatro estagiários, todos vestidos, ninguém tirou ao menos o terno. Todos transpiram feito porcos!
Queria um café, mas não me atrevo a tomar... Hoje vai ser um longo dia!
domingo, 15 de novembro de 2009
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Pela manhã
Maria ajoelha,
É fonte de fé
Pede a boa ida
Pro nobre José
Que tem fé parelha
Mas sofre da vida
E acorda danado
Num gesto calado
Pedindo café
É fonte de fé
Pede a boa ida
Pro nobre José
Que tem fé parelha
Mas sofre da vida
E acorda danado
Num gesto calado
Pedindo café
sábado, 31 de outubro de 2009
A Hora da Partida
O fato é que tinha, no lugar da usual severidade, horror no seu olhar. Aqueles olhos azuis que mais pareciam duas luminárias, que sempre me causaram certo terror, encontravam-se fixos em mim, de tal forma que me causava dor no peito só de encará-los de volta.
Piscou duas vezes: na primeira, passou os olhos pelo aposento escuro; na segunda, tornou olhar na minha direção. O horror neles havia aumentado, parecia dizer- me alguma coisa. Abriu a boca numa tentativa débil de comunicar-me algo... Nunca soube o que ele queria... Naquele exato momento enfartei fulminantemente.
Piscou duas vezes: na primeira, passou os olhos pelo aposento escuro; na segunda, tornou olhar na minha direção. O horror neles havia aumentado, parecia dizer- me alguma coisa. Abriu a boca numa tentativa débil de comunicar-me algo... Nunca soube o que ele queria... Naquele exato momento enfartei fulminantemente.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Quando dona Lúcia morreu a rua se assustou, percebendo que os bons também morrem. Nem a mais gorda das fofoqueiras do bairro soltou um pio de sua maldade, constrangida com a morte, que dessa vez deu um golpe baixo demais.
Todos pareceram mais velhos, comentando a fraqueza da vida e a tristeza do fim, praqueles homens e mulheres, de repente a morte se revelou em tudo, as vozes sopravam baixo o preço das coisas, ou o que precisavam comprar, ou que o filho já não vinha mais.
Qualquer que fosse a necessidade de fala, era um sussurro temente à fragilidade do corpo, que podia arrebentar. A morte, quando levou dona Lúcia, parecia ter se mudado pra lá, praquela cadeira que ficou vazia, mas não parava de balançar.
Todos pareceram mais velhos, comentando a fraqueza da vida e a tristeza do fim, praqueles homens e mulheres, de repente a morte se revelou em tudo, as vozes sopravam baixo o preço das coisas, ou o que precisavam comprar, ou que o filho já não vinha mais.
Qualquer que fosse a necessidade de fala, era um sussurro temente à fragilidade do corpo, que podia arrebentar. A morte, quando levou dona Lúcia, parecia ter se mudado pra lá, praquela cadeira que ficou vazia, mas não parava de balançar.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Telefonema da Esperança
-Morreu?!
-Não, não... tá tudo bem, a cirurgia foi um sucesso!
-Ahhhhhn...que bom!!
Juro que senti uma leve decepção no tom de voz, mas mantive a conversa...
-É! Daqui a três dias recebe alta.
-Assim tão rápido?! (exclamou a senhora S. do outro lado da linha, agora num tom de surpresa)
-Como eu disse, deu tudo certo, esses dias de internação serão, somente, para observação.
-Entendi... e quem vai ficar com ele?
-Eu, obviamente.
-Se você quiser, eu posso...
-Não tem necessidade.
-Tudo bem, faço uma visita amanha, então. Quem vai estar ai na parte da manhã?
-Minha avó e eu.
-Mas vai passar esse tempo todo aí, sem tomar banho nem nada?
-Trouxe roupa o suficiente pra ficar os três dias e a refeição o acompanhante tem direito.
-Bem... fica com Deus e mande um abraço pra ele!
-A senhora também!
-Tchau! - e antes do telefone atingir o gancho, ainda pode-se ouvi-la exclamar – Esse filho da puta não morre!!
*******
-Quem era?
-Era a dona S.
-Hum...
-Que foi?
-É que senti um arrepio... Mas essa velha não morre, hein?!
-Não, não... tá tudo bem, a cirurgia foi um sucesso!
-Ahhhhhn...que bom!!
Juro que senti uma leve decepção no tom de voz, mas mantive a conversa...
-É! Daqui a três dias recebe alta.
-Assim tão rápido?! (exclamou a senhora S. do outro lado da linha, agora num tom de surpresa)
-Como eu disse, deu tudo certo, esses dias de internação serão, somente, para observação.
-Entendi... e quem vai ficar com ele?
-Eu, obviamente.
-Se você quiser, eu posso...
-Não tem necessidade.
-Tudo bem, faço uma visita amanha, então. Quem vai estar ai na parte da manhã?
-Minha avó e eu.
-Mas vai passar esse tempo todo aí, sem tomar banho nem nada?
-Trouxe roupa o suficiente pra ficar os três dias e a refeição o acompanhante tem direito.
-Bem... fica com Deus e mande um abraço pra ele!
-A senhora também!
-Tchau! - e antes do telefone atingir o gancho, ainda pode-se ouvi-la exclamar – Esse filho da puta não morre!!
*******
-Quem era?
-Era a dona S.
-Hum...
-Que foi?
-É que senti um arrepio... Mas essa velha não morre, hein?!
terça-feira, 7 de julho de 2009
É possível anotar a vida, dizia para mim o velho poeta, mas não a dela, completava seu pensamento enquanto entornava para dentro o café. Não é possível anotar a vida de nenhuma delas. O problema não é que elas sejam realmente incompreensíveis, mas que seria doloroso demais entendê-las. Esse é o drama dos homens, espero que isso não passe despercebido pela sua geração, ou por você.
Eu não entendia o que o velho poeta dizia, mas como poderia? Era um menino, e queria continuar sendo, e o fui por muito tempo. É que o homem não cresce aos poucos, envelhece em um só gole, um pesado e profundo gole, que fica apenas mais amargo quando pensamos sobre ele.
Eu não entendia o que o velho poeta dizia, mas como poderia? Era um menino, e queria continuar sendo, e o fui por muito tempo. É que o homem não cresce aos poucos, envelhece em um só gole, um pesado e profundo gole, que fica apenas mais amargo quando pensamos sobre ele.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Vem aí bom tempo, o pescador me confirmou.
Morava sozinho, numa casa velha que ficava numa dessas vilas antigas (que, hoje em dia, praticamente não existem mais). Sua senhora havia falecido há pouco tempo, pouco mais de um mês, ele tornou-se recluso, passou a sair pouco e pegou a mania de ficar no escuro à noite, nem a televisão ligava. Seus filhos almoçavam com ele todo domingo, mais por se sentirem obrigados do que por vontade própria (até porque não fingir preocupação com um senhor de oitenta e quatro anos...).
Sentava-se todos os dias na varanda, sempre no mesmo horário. E assim que se aprumava na sua cadeira de balanço: chovia! Antes sentava-se ali com sua mulher para conversar. Agora deixava-se observar a chuva por longo tempo, as vezes passava horas imóvel sem desviar os olhos do céu e sou rosto assumia uma expressão mais branda e menos triste. Os vizinhos diziam: “seu Pedro deve ter esclerosado de vez, ninguém em perfeito juízo fica olhando chuva por tanto tempo!” ou então “Coitado! Desde que dona Matilde se foi ficou assim meio aluado” ou ainda os mais jovens balançando a cabeça ”Todo dia esse velho maluco sai na hora da chuva”.
Num dia um dos moradores da vila, uma jovenzinha que havia herdado a casa da sua avó, notou que não estava chovendo na “hora da chuva”, saiu de casa e deparou-se com céu que nunca vira, um arrebol belíssimo ocupava o horário da chuva. E a cadeira do seu Pedro estava vazia.
Sentava-se todos os dias na varanda, sempre no mesmo horário. E assim que se aprumava na sua cadeira de balanço: chovia! Antes sentava-se ali com sua mulher para conversar. Agora deixava-se observar a chuva por longo tempo, as vezes passava horas imóvel sem desviar os olhos do céu e sou rosto assumia uma expressão mais branda e menos triste. Os vizinhos diziam: “seu Pedro deve ter esclerosado de vez, ninguém em perfeito juízo fica olhando chuva por tanto tempo!” ou então “Coitado! Desde que dona Matilde se foi ficou assim meio aluado” ou ainda os mais jovens balançando a cabeça ”Todo dia esse velho maluco sai na hora da chuva”.
Num dia um dos moradores da vila, uma jovenzinha que havia herdado a casa da sua avó, notou que não estava chovendo na “hora da chuva”, saiu de casa e deparou-se com céu que nunca vira, um arrebol belíssimo ocupava o horário da chuva. E a cadeira do seu Pedro estava vazia.
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